Existe uma coisa sobre Seul que ninguém consegue explicar direito para quem nunca foi. Não é o metrô que chega no segundo exato prometido, nem os mercados noturnos que funcionam como se o tempo não existisse, nem a forma como um arranha-céu de vidro divide a mesma rua com um palácio da dinastia Joseon. É a tensão. A sensação constante de que o novo e o velho não estão em conflito aqui. Estão em negociação permanente.
Os jovens carregam AirPods e tablets em cafés de design minimalista, mas quando o Chuseok chega, voltam para casa. Não como uma obrigação vaga, mas como gravidade. A família reune, as receitas aparecem, os rituais se repetem. A modernidade mais veloz do mundo pausa, por alguns dias, para se lembrar de onde veio.
Levei um tempo para entender o que isso me dizia.
Eu saí do Brasil em 2015 carregando a ideia de que partir significava, em alguma medida, soltar. Soltar o lugar, soltar a língua, soltar as raízes que eu nem sabia que eram tão fundas. Seul era o destino, a novidade, o próximo capítulo. O que eu não esperava era que uma cidade tão radicalmente diferente de tudo que eu conhecia fosse me devolver para mim mesma com tanta precisão.
Foi aqui, do outro lado do mundo, que entendi o que é a Umbanda. Não como doutrina decorada, mas como sistema vivo. A fé que minha família carregou por décadas, o terreiro que co-fundaram e que funcionou por cinquenta anos, as entidades que sempre estiveram presentes, tudo isso que eu achei que estava deixando para trás no Brasil, encontrou um idioma novo em Seul. Começou a fazer sentido de um jeito que só a distância permite.
Porque Seul me mostrou, todos os dias, que tradição não mora num endereço. Mora nas ações. No gesto repetido. Na consciência de que o que você é não começa em você. Tampouco no lugar que você habita.
A Coreia tem uma palavra para isso, ainda que eu não consiga pronunciá-la sem sotaque: 눈치 (nunchi), a capacidade de ler o ambiente, de sentir o que não é dito, de estar presente de um jeito que vai além do corpo. É uma habilidade cultivada por gerações. Não se aprende num curso intensivo de idiomas. Se herda.
Eu penso muito nisso quando faço uma leitura de tarot. Quando pego as cartas e deixo que algo maior do que o raciocínio fale através delas. Não é diferente do que minha avó fazia no terreiro, com outros instrumentos, outra linguagem. A raiz é a mesma.
Onze anos em Seul me ensinaram que o abandono que eu temia não existe. Que lar não é o lugar onde você nasceu nem o lugar onde você mora agora. Lar é o que você carrega com tanta naturalidade que esquece que está carregando.
O ancestral não está no templo físico. Está nas suas ações, na sua fé, na forma como você trata o que é invisível.
Seul me lembrou disso toda semana, sem nunca dizer uma única palavra.





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